Complicados e perfeitinhos: bom o suficiente pode ser uma meta inteligente

Da arte à saúde mental, a busca pelo equilíbrio e a aceitação da imperfeição se mostram essenciais para a vida.

Pesquisadores americanos da Universidade de Northwestern publicaram este mês na revista Science resultados que mostram que a imperfeição, heterogeneidade, de sistemas complexos é vantajosa para sua manutenção. Eles testaram modelos matemáticos para redes de energia, neurônios, materiais e sistemas ecológicos. Pouca variação traz menos vantagem, assim como muita variação. O ideal são variações moderadas. Mas o que isso tem a ver com nosso mundo no dia a dia?

A natureza é diversa e curiosamente nosso cérebro gosta dessa variação. O que preferimos, uma tela quase toda branca, uma tela quase toda preta ou outra com mistura das cores com a densidade semelhante às pinturas de Jackson Pollock. Preferimos a que mistura. Voltamos à natureza, pois esta é a mesma densidade da copa das árvores que acompanha um rio.

O que você prefere uma música bate-estaca com ritmo absolutamente regular, outra com variação de ritmo imprevisível ou outra com variações, mas com o mínimo de previsibilidade. Preferimos esta terceira. Mais uma vez de volta à natureza. Este é o padrão de som da corredeira dos rios.

Isso me faz pensar no livro The Perfection Trap (A Armadilha da Perfeição, em tradução livre), Schribner Book Company 2023. Thomas Curran, professor da London School of Economics, provoca uma reflexão sobre a fantasia do perfeccionismo. Tempos modernos com redes sociais despejando modelos perfeitos e alcançá-los de forma obsessiva parece ser o caminho para uma vida bem sucedida e feliz. A armadilha recai na saúde mental daqueles que estão nela presos e assumir nossa imperfeição pode nos fazer mais fortes, assim como os sistemas elencados no início desse artigo. Não precisamos ser péssimos. Precisamos buscar sermos suficientemente bons, e este é o subtítulo do livro de Thomas Curran.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília.
Crédito foto: Pexels

Fale conosco via WhatsApp