Uma mentira leva a outra. Como isso funciona no cérebro?

De acordo com um estudo publicado pela Revista Nature Neuroscience o cérebro colabora para o famoso ditado “uma mentira leva a outra”

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira*

Nosso cérebro tem um mecanismo de alarme que acende a “luz vermelha” quando fazemos algo de perigoso, errado ou imoral. Contar uma mentira tem o poder de disparar esse alarme, também conhecido como amígdalas das regiões temporais. Em um estudo publicado pela prestigiada revista Nature Neuroscience tivemos a demonstração de como o cérebro colabora para o fenômeno “uma mentira leva a outra”.

Pesquisadores do University College of London estudaram através de ressonância magnética funcional os cérebros de 80 voluntários durante um jogo que eles tinham a possibilidade de mentir para aumentar as chances de ganhar o jogo. Uma pequena mentira era capaz de estimular as amígdalas, e à medida que novas mentiras iam sendo contadas, as amígdalas iam ficando menos estimuladas, iam adormecendo.

Com as amígdalas adormecidas, o cérebro ficaria mais encorajado a contatar mentiras mais robustas. E foi exatamente isso que os cientistas encontraram: à medida que eles iam mentindo, as amígdalas iam se apagando e as mentiras ficavam cada vez mais ousadas. Você deve estar aí imaginando que muitas personalidades do nosso noticiário diário devem ter as amídalas, não adormecidas, mas em coma.

E não é só de amígdalas adormecidas que a mentira vive. Regiões frontais do cérebro precisam estar intactas para que a mentira aconteça. Vejam só o caso dos portadores da Doença de Parkinson. O Parkinson é muito conhecido pelos seus sintomas motores tais como o tremor e rigidez, mas o fato é que a doença vai muito além disso.

Já é bem reconhecida a redução de funções cognitivas na evolução da doença e há quase um século já se descrevia que os parkinsonianos apresentavam uma personalidade peculiar e os estudos têm consistentemente demonstrado que há uma tendência a um maior grau de determinação, seriedade e inflexibilidade.

O processo de degeneração cerebral associado à doença é visto como um grande candidato para explicar esses traços de personalidade. A honestidade também é descrita como um traço peculiar da personalidade do parkinsoniano, descrita como uma tendência em não mentir.

Nesse caso, o mais provável é que os doentes tenham dificuldade em mentir devido às alterações cerebrais e não porque sejam genuinamente mais honestos. E foi isso que pesquisadores japoneses conseguiram confirmar em um elegante estudo publicado no periódico especializado Brain.

Num teste psicológico experimental, indivíduos com o diagnóstico da Doença de Parkinson apresentaram mais dificuldade em dar respostas falsas quando comparados ao grupo controle sem a doença. Além disso, foi demonstrado que essa dificuldade em mentir foi maior entre os parkinsonianos que tinham menor metabolismo cerebral nas regiões pré-frontais, medido por tomografia por emissão de positrons (PET).

Estudos anteriores já haviam demonstrado que essas mesmas regiões pré-frontais são ativadas quando um indivíduo saudável conta uma mentira. Essa foi a primeira vez que se demonstrou a base biológica da personalidade honesta dos portadores da Doença de Parkinson e que esta está associada à disfunção nas regiões frontais do cérebro.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília.

Matéria e imagem publicadas originalmente no site do Correio Braziliense.
Crédito foto:
Valdo Virgo/CB/D.A.Press

 

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