Entendemos cada vez mais como a COVID 19 ataca nosso cérebro

Hoje já contamos com  um grande corpo de evidências de como a COVID 19 pode deixar nosso cérebro disfuncional.  É capaz de alterar até o DNA dos neurônios! 


No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite, estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Vale lembrar que parte dos sintomas psiquiátricos encontrados podem ser secundários a alterações cerebrais promovidas pela infecção mesmo.

Como isso tudo acontece no cérebro? Já temos evidências de inchaço e inflamação do cérebro em alguns pacientes e tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas as séries neuropatológicas apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. O componente de insultos microvasculares parece estar envolvido também, fenômeno descrito por um elegante estudo de Ressonância Magnética e autopsias publicado em 2020 pelo New England Journal of Medicine.  

Um achado muito relevante foi revelado este ano entre pacientes ambulatoriais com declínio cognitivo após a infecção, condição conhecida por brain fog. Dez meses após os primeiros sintomas da COVID-19, a análise do líquor mostrou alterações muito sugestivas de um processo inflamatório autoimune onde o sistema de defesa do indivíduo ataca o próprio sistema nervoso central. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da California nos EUA e publicado pelo periódico Annals of Clinical and Translational Neurology. A Cell, periódico do grupo Nature, publicou este ano evidências de que o vírus, mesmo sem conseguir penetrar em células nervosas do nosso olfato, promove um processo inflamatório que promove alterações da arquitetura do núcleo e DNA dessas células, tornando-as disfuncionais. Isso pode explicar inúmeros sintomas da chamada COVID longa.

E quando se fala em COVID longa no cérebro, acho que nenhum estudo foi tão divulgado como o da Universidade de Oxford que revelou redução do volume de estruturas cerebrais após a infecção pela COVID em sua forma leve. O artigo foi publicado pela Nature e apontou que, após 4.5 meses em média, estruturas do cérebro fortemente ligadas ao olfato tinham uma redução da espessura da substância cinzenta, mais especificamente o giro parahipocampal e córtex orbitofrontal. Houve também uma redução do volume total do volume cerebral e outras estruturas do encéfalo como o cerebelo. Os pacientes apresentaram uma redução do desempenho cognitivo que foi associada à redução do volume cerebelar. O incrível feito desse estudo foi o fato de ter avaliado 785 pessoas por neuroimagem e testes cognitivos de forma seriada ao longo dos anos e, entre as duas últimas testagens, 401 voluntários testaram positivo para o SARS-CoV-2. Os cérebros daqueles que foram contaminados foram comparados aos dos não contaminados.

 

Confira o áudio da coluna Cuca Legal, uma parceria do ICB com a Rádio CBN Brasília: